Reprodução / LFC TVUma fotografia emoldurada de Trent Alexander-Arnold com Alex Inglethorpe, diretor da academia do Liverpool, chama a atenção no escritório do dirigente, no Centro de Treinamento AXA. Registrada em 2019, a imagem representa uma trajetória que inspira os jovens das categorias de base do clube.
Alexander-Arnold deixou o Liverpool no ano passado para defender o Real Madrid, após 20 anos em Merseyside. Revelado pelo clube desde os seis anos, em 2004, o lateral conquistou a Premier League, a Liga dos Campeões, a Copa da Inglaterra, a Copa da Liga Inglesa, a Supercopa da UEFA e o Mundial de Clubes da FIFA com a equipe inglesa.
“O ideal para qualquer academia, e certamente para nós, é que os jogadores jovens — e, de preferência, jogadores locais — melhorem o time principal e, ao fazer isso, conquistem troféus”, afirma Inglethorpe em matéria assinada pelo BBC.
“No Liverpool, o nível de exigência é alto, então ter um jogador capaz de ganhar tudo o que é possível ganhar é um sonho.”
O dirigente e sua equipe são responsáveis pelo desenvolvimento dos jovens e pela integração entre a academia e o elenco profissional. Uma frase resume o desafio enfrentado pelos atletas: o campo do time principal fica a apenas 300 metros do prédio da base, em Kirkby, mas o caminho até lá pode levar dez anos.
Com Andoni Iraola no comando técnico, jogadores formados na academia, como Rio Ngumoha, Trey Nyoni, Lewis Koumas e James McConnell, vêm recebendo oportunidades nesta temporada.
“Tivemos sorte devido à forma como o calendário funcionou, com os jogadores ainda na Copa do Mundo e um retorno atrasado. Andoni e sua equipe passaram boa parte da primeira semana aqui observando a academia”, explica Inglethorpe.
“Então, sentimos que estávamos em vantagem, em termos de construir um relacionamento desde o início.”
## Liverpool busca se adaptar ao mercado de jovens
Na academia de Kirkby, os celulares são recolhidos pela manhã, enquanto os contratos também estabelecem limites para a cilindrada dos motores dos carros que entram nas instalações.
“Tudo se resume a passar na audição. A primeira impressão é a que fica”, diz Inglethorpe.
“Muitas vezes, antes mesmo de você chutar uma bola, o carro que você dirige ou o relógio que você usa podem influenciar a forma como as pessoas pensam de você — e isso pode acontecer com a comissão técnica ou com os jogadores do time principal.”
“Há algum tempo que acreditamos na ideia de ‘merecer o direito’.”
A disputa por jovens talentos ganhou novos exemplos recentemente. Na semana passada, o Manchester United contratou Isaac Konde, ponta de 16 anos que estava no Liverpool, com um contrato de formação de um ano, seguido por um vínculo profissional de cinco anos. Os clubes negociam agora o valor da compensação.
Em fevereiro, um tribunal determinou que o Liverpool deveria pagar pelo menos 2,8 milhões de libras ao Chelsea por Rio Ngumoha. O atacante, atualmente com 18 anos, deixou o clube londrino em setembro de 2024 para se juntar aos Reds e assinou seu primeiro contrato profissional um ano depois.
Os dois casos ilustram o cenário atual do mercado. No Liverpool, a avaliação é de que o clube tem agido com responsabilidade, priorizando benefícios a longo prazo, embora a estrutura salarial esteja passando por uma revisão.
“É sempre um elogio quando outros clubes querem seus jogadores, pois significa que você está fazendo algo certo”, afirma Inglethorpe.
“Mas acho que o mercado de jogadores de 16 anos está distorcido por causa do Brexit e porque não se pode recrutar como antes. Sempre houve movimentação de jogadores, mas agora parece um pouco mais extrema.”
“Quando há uma grande procura por talentos, os honorários, os salários e tudo o mais mudam em conformidade, então trata-se de lidar com o que temos e adaptar-se a uma nova situação.”
## A importância de revelar jogadores locais
A saída de Curtis Jones para a Inter de Milão no verão deixou o elenco principal do Liverpool sem jogadores nascidos na própria cidade.
“Reconheço o fato de que, idealmente, o Liverpool adoraria ter um time cheio de Scousers”, diz Inglethorpe, referindo-se aos moradores de Liverpool.
“Mas isso demonstra a lealdade dos torcedores, pois se você adotar as características de um Scouser — e basta ver figuras como Bill Shankly, Kenny Dalglish e outros ao longo dos anos — você pode ser tratado como um dos seus.”
“Então, se você for destemido, apaixonado, jogar com garra e demonstrar essas qualidades, não importa se você vem de uma área de baixa renda ou não. Essa é a beleza do clube e da torcida.”
Um dos nomes que merecem atenção é Luca Eden, meio-campista de 15 anos nascido em Wirral e que já defendeu a Inglaterra nas categorias de base. No mês passado, ele se tornou o jogador mais jovem a atuar na Liga Jovem da UEFA pelo Liverpool, superando uma marca que pertencia a Joshua Abe, Ngumoha e Alexander-Arnold.
“Temos muitos jogadores de Liverpool na academia e muitos que eu acho que vão jogar pelo clube. Mas se não, e um garoto vier de Warrington ou de qualquer outro lugar, isso não é problema”, ressalta o dirigente.
## Nem sempre os melhores da base chegam ao profissional
Um dos desafios da função de Inglethorpe é decidir quais jogadores deixarão a academia. Ao final da última temporada, oito atletas foram dispensados pelo Liverpool.
O dirigente lembra que nem mesmo Harry Kane, quando despontava na base do Tottenham, onde Inglethorpe trabalhava, e Alexander-Arnold eram necessariamente os principais destaques de suas respectivas gerações.
“Nessa fase, há muitas incógnitas. Não dá para prever como os jogadores vão reagir às adversidades e aos obstáculos naturais que surgem no caminho”, afirma.
“Já me enganei tantas vezes no passado. Um bom exemplo seria o Jarell [Quansah] — alguém que sempre foi querido e nunca correu o risco de sair, mas provavelmente nunca esteve entre os três primeiros do grupo.”
Quansah deixou o Liverpool para jogar no Bayer Leverkusen em 2025 e, desde então, recebeu oito convocações para a seleção inglesa.
“Não há certezas — o objetivo da academia é permitir que eles realizem seu potencial”, explica Inglethorpe.
“Às vezes, os jogadores precisam sair para ter uma oportunidade. Há muitos exemplos excelentes de jogadores que saíram e tiveram boas carreiras, e não estou convencido de que teriam tido a mesma carreira se tivessem ficado no Liverpool.”
“O caminho mais direto e produtivo é se firmar, mas existem diferentes trajetórias que podem levar de volta a jogar pelo Liverpool — e esse é o sonho.”
## Inglethorpe projeta futuro promissor
Perto da entrada dos campos utilizados pelos jovens, uma placa traz a mensagem “Não olhe para os lados”, em referência às instalações onde o elenco principal treina.
Inglethorpe completará 14 anos no Liverpool no próximo mês. Ao avaliar sua trajetória, o dirigente destaca a evolução do projeto e a presença de jogadores formados na base entre os responsáveis por conquistas importantes.
“Qualquer um gostaria de assumir um projeto e deixá-lo melhor, e acho que conseguimos isso”, afirma. “No fim das contas, tivemos jogadores no time principal conquistando títulos importantes e temos a sorte de fazer parte dessa era.”
Entre as lembranças mais marcantes está a final da Copa da Liga Inglesa de 2024, quando o Liverpool venceu o Chelsea. Em meio a uma crise de lesões, Jürgen Klopp recorreu a diversos jogadores da base e terminou a partida com uma equipe cuja média de idade era inferior a 22 anos. O treinador classificou o título como o “troféu mais especial” de sua carreira.
“Com certeza foi um momento histórico. Quanto mais o jogo avançava, mais Jurgen tirava os veteranos e colocava um dos garotos em campo. Foi uma demonstração incrível de confiança”, recorda Inglethorpe.
Em outra parede de seu escritório, um quadro magnético reúne fotografias dos jogadores da academia de um lado e do elenco principal do outro. O objetivo é que os jovens avancem até a equipe profissional.
O clube também prepara uma reforma de 20 milhões de libras nas instalações da academia, com conclusão prevista para 2028, reforçando a intenção de continuar formando atletas para o time principal.
“Há tempos empolgantes pela frente, com o potencial para o outro lado da moeda, e estou realmente entusiasmado com o futuro”, diz Inglethorpe.
“Em Julian Ward [o novo diretor esportivo], temos alguém que está extremamente comprometido com a academia e que está nessa jornada há muito tempo.”
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